Você sabe o que é DGL? Aprenda a fazer o trabalho correto.

O leite, alimento indispensável no nosso dia a dia, é composto por vários nutrientes sendo que os mais abundantes são a água, os açúcares, proteína, gordura, minerais e vitaminas. Entre todos estes nutrientes, a concentração ou teor de gordura é o componente que mais sofre variação, e este é afetado por inúmeros fatores fisiológicos e ambientais, entre eles, a alimentação e o manejo nutricional dentro da fazenda.
Quando observamos quedas drásticas no teor de gordura do tanque, geralmente valores que vão abaixo de 3,3%, ou inversão na relação entre a concentração de gordura e proteína, isto é, a razão do teor de gordura e proteína é menos que um (gordura/proteína<1) podemos estar identificando um grande desafio na produção de leite conhecido como DGL ou depressão na gordura do leite.
A DGL é causada por mudanças específicas no padrão de fermentação ruminal. Nesse caso, alterações de biohidrogenação ruminal de ácidos graxos insaturados, provenientes da dieta, resultam na passagem para o intestino, de novos subprodutos intermediários, que subsequentemente, causam redução na síntese de gordura pela glândula mamária. Entre todos os fatores nutricionais que possam comprometer a produção de ácidos graxos pela glândula mamária, resultando em DGL, dois são fundamentais: oferta de ácidos graxos poli-insaturados da dieta e alteração no padrão de fermentação ruminal.
Nos mais variados sistemas de produção de leite no Brasil, a baixa oferta e qualidade do volumoso tendem a ser substituídas por maiores níveis de concentrado na dieta, e estes grãos, além da grande quantidade de amido e carboidratos não fibrosos (CNF) altamente fermentescíveis, podem apresentar maiores concentrações de óleos e gorduras, provenientes principalmente de subprodutos de oleaginosas, tais como soja, algodão, amendoim, girassol e canola.
Dessa forma, os baixos valores de sólidos encontrados no nosso leite estão intimamente ligados aos inúmeros desafios de manejo na rotina diárias das nossas fazendas. A manutenção de níveis ótimos de produção de gordura no leite representa valores que vão além da remuneração feita pelo laticínio, uma vez que a capacidade de síntese de ácidos graxos pela glândula mamária representa, inclusive, um importante marcador de saúde, e consequentemente, produtividade do rebanho.
Síntese de gordura no leite
A gordura do leite é composta por dois grupos principais de ácidos graxos. Geralmente, 50% dos ácidos graxos do leite são formados por ácidos graxos de cadeia longa, isto é, maiores ou iguais a 16 carbonos. Os outros 50% são formados por ácidos graxos de cadeia curta e média, ou seja, menores ou iguais a 14 carbonos. Os ácidos graxos de cadeia longa (>16 C) são provenientes tanto da quantidade de óleo e gordura da dieta, como também da gordura originada na queima da reserva corporal. Ambos são captados pela glândula mamária e incorporados à gordura do leite.
Os ácidos graxos de cadeia curta (<14 C) são sintetizados pela glândula mamária, por precursores como acetato e butirato, através de um mecanismo conhecido por “de novo síntese”. Quando ocorre DGL, os ácidos graxos que apresentam concentração reduzida são aqueles com 14 C ou menos. Esse resultado é um indicativo que a DGLocorre quando a própria glândula mamária diminui sua própria produção de gordura (Figura 1)
Biohidrogenação ruminal
Mesmo que, geralmente, dietas de ruminantes contenham baixa concentração de óleos e gorduras quando comparadas com as dietas de outras categorias animais, o fornecimento de alguns tipos de forragem, grãos, suplementos a base de óleos e outros subprodutos para vacas de leite podem resultar em significante ingestão de ácidos graxos poli-insaturados. Os ácidos graxos provenientes da dieta na sua maioria são esterificados na forma de triglicerídeos. Uma vez no rúmen, os ácidos graxos são hidrolisados e os ácidos graxos insaturados resultantes passam a ser isomerizados, quando ocorre mudança da posição da dupla ligação, e biohidrogenados, quando ocorre remoção da dupla ligação ou insaturação (Figura 2).
Figura 1. Síntese de ácidos graxos pela glândula mamária.
Síntese de gordura no leite
A gordura do leite é composta por dois grupos principais de ácidos graxos. Geralmente, 50% dos ácidos graxos do leite são formados por ácidos graxos de cadeia longa, isto é, maiores ou iguais a 16 carbonos. Os outros 50% são formados por ácidos graxos de cadeia curta e média, ou seja, menores ou iguais a 14 carbonos. Os ácidos graxos de cadeia longa (>16 C) são provenientes tanto da quantidade de óleo e gordura da dieta, como também da gordura originada na queima da reserva corporal. Ambos são captados pela glândula mamária e incorporados à gordura do leite.
Os ácidos graxos de cadeia curta (<14 C) são sintetizados pela glândula mamária, por precursores como acetato e butirato, através de um mecanismo conhecido por “de novo síntese”. Quando ocorre DGL, os ácidos graxos que apresentam concentração reduzida são aqueles com 14 C ou menos. Esse resultado é um indicativo que a DGLocorre quando a própria glândula mamária diminui sua própria produção de gordura (Figura 1)
Biohidrogenação ruminal
Mesmo que, geralmente, dietas de ruminantes contenham baixa concentração de óleos e gorduras quando comparadas com as dietas de outras categorias animais, o fornecimento de alguns tipos de forragem, grãos, suplementos a base de óleos e outros subprodutos para vacas de leite podem resultar em significante ingestão de ácidos graxos poli-insaturados. Os ácidos graxos provenientes da dieta na sua maioria são esterificados na forma de triglicerídeos. Uma vez no rúmen, os ácidos graxos são hidrolisados e os ácidos graxos insaturados resultantes passam a ser isomerizados, quando ocorre mudança da posição da dupla ligação, e biohidrogenados, quando ocorre remoção da dupla ligação ou insaturação (Figura 2).
Figura 1. Síntese de ácidos graxos pela glândula mamária.


Figura 2. Exemplo de triglicerídeos e de ácido graxo insaturado.


É importante lembrar que a extensão da biohidrogenação e a formação de ácidos graxos intermediários são determinadas pelas propriedades de cada fonte de gordura, tempo de retenção no rúmen e características da população microbiana. Fatores inerentes à dieta que modificam o padrão de fermentação ruminal, principalmente a alta concentração de amido, alta concentração de óleos e inclusão de monensina sódica alteram o metabolismo ruminal de ácidos graxos, resultando numa população microbiana que utiliza caminhos alternativos para biohidrogenação. Quando esses caminhos alternativos não se completam, o risco de DGL aumenta.
Os ácidos graxos do tipo trans- são metabólicos intermediários normalmente encontrados no líquido ruminal (Figura 3). Eles são sintetizados durante o processo de biohidrogenação de ácidos graxos poli-insaturados pelos micro-organismos do rúmen. Uma vez que a hidrogenação de ácidos graxos insaturados é incompleta, a passagem de ácidos graxos trans- para o duodeno aumenta.

Figura 3. Biohidrogenação durante fermentação ruminal normal e alterada.


Depressão da gordura do leite
Pesquisadores das universidades de Cornell e Maryland observarem que a DGL está relacionada com a quantidade de ácidos graxos intermediários ou do tipo trans- sintetizados no rúmen, absorvidos pelo intestino delgado e incorporados pela glândula mamária na gordura do leite. Quando as concentrações de ácidos graxos trans- do leite aumentam, a concentração total de gordura do leite diminui (Figura 4). Observe que após a infusão de ácidos graxos do tipo trans-, o teor de gordura caiu de 3,3 para 2,6% e de 4,1 para 3,2% nos experimentos de Cornell e Maryland, respectivamente.

Figura 4. Concentração de gordura no leite após infusão de ácidos graxos do tipo trans-:


Concentração de gordura na dieta
Aumentar a concentração de ácidos graxos insaturados na dieta pode causar inúmeras mudanças na distribuição da população microbiana e alterações características fermentativas do rúmen. Uma vez que algumas populações de micro-organismos ruminais são mais sensíveis que outros, essas mudanças redirecionam a forma que a biohidrogenação acontece, causando acúmulo de ácidos graxos trans-, resultando em DGL. Na figura 5 podemos observar algumas das principais fontes de ácidos graxos insaturados na dieta de bovinos de leite no Brasil.
Considerando dietas típicas brasileiras em que a fonte de concentrado é basicamente milho,
Considerando dietas típicas brasileiras em que a fonte de concentrado é basicamente milho, soja e algodão; e a fonte de volumoso é silagem de milho e gramíneas, a concentração de ácidos graxos insaturados, principalmente aqueles com duas ligações ou mais é bastante abundante. Dessa forma devemos realmente ser cautelosos em qualquer inclusão ou mudança de níveis de gordura da dieta, uma vez que pequenas mudanças podem causar grandes alterações na fermentação e microbiota ruminal, resultando em DGL.
Estudos realizados por pesquisadores na Universidade de Michigan ilustram muito bem a intensidade da DGL quando fontes de ácidos graxos insaturados é parte da alimentação de vacas em lactação. Ainda, quanto mais insaturações conter as fontes de gordura adicionadas à dieta, mais acentuada a queda nas concentrações de gordura do leite (Figura 6).

Figura 5. Composição de ácidos graxos de ingredientes típicos em dietas de vacas de leite no Brasil.


Figura 6. Efeito da adição de diferentes fontes de gorduras, de acordo com o grau de insaturação, em dietas de vacas de leite em lactação.


Alternativas para driblar a DGL
Recentemente, pesquisadores da Esalq, Universidade de São Paulo, em Piracicaba, demonstraram os efeitos da suplementação de duas fontes distintas de gordura inerte na alimentação de vacas de leite cruzadas em sistema de pastejo rotacionado ao longo da lactação e seus efeitos na produção de leite e sólidos em geral (Figura 7).
Figura 7. Produção e composição de leite de vacas suplementadas com gordura inerte durante a lactação.


Em relação ao controle, ambas as fontes de gordura aumentaram a produção de leite diária, e ainda quando comparada às duas fontes, a suplementação de óleo de palma foi superior à soja. Uma vez que o óleo de soja é rico em gordura poli-insaturada (ver descrição da figura 5), principalmente ácido linoleico, esperava-se as vacas suplementadas com essa fonte apresentassem DGL, porém, é interessante frisar que os efeitos da DGL são corrigidos quando outra fonte de gordura - no caso óleo de palma - é utilizada.
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O óleo de palma apresenta mais de 50% de gordura saturada, que por não apresentar duplas ligações, afeta de maneira mínima a biohidrogenação e consequentemente proporciona aos animais uma produção de leite pela glândula mamária adequada. Mais uma vez observa-se como o aumento de óleos e gordura ricos em ácidos graxos poli-insaturados pode comprometer o teor de gordura no leite, principalmente em dietas típicas brasileiras.

Considerações finais
No artigo de hoje apresentamos o que é e como acontece a chamada DGL, e como a concentração de ácidos graxos poli-insaturados pode afetar a síntese de gordura pela glândula mamária. Suplementação de gordura é comumente utilizada para aumentar a densidade energética da dieta e otimizar a produção de leite. Nem todas as fontes de óleos e gordura disponíveis para alimentação de bovinos são iguais. Conhecer que tipo de ácidos graxos e o processo como são produzidos e extraídos de cada fonte é importante na hora da tomada de decisão da inclusão ou não desses produtos nas dietas de nossas vacas.
De maneira geral, fontes de gordura oriundas de óleo de palma que apresentam uma concentração de ácidos graxos saturados e monoinsaturados maior que de outras fontes vegetais como soja, girassol e milho favorecem a concentração de gordura no leite em dietas de baixa quantidade e qualidade de forragem com alta concentração de grãos. Realidade muito comum em dietas de vacas em lactação no Brasil. Lembre-se de considerar que os potenciais efeitos da suplementação de cada tipo gordura nas dietas de vacas de leite é ferramenta essencial para maximizar consumo, produção de leite e ainda evitar a prevalência de DGL, mantendo assim teores adequados de gordura no tanque.
No nosso último artigo apresentamos que certos tipos de dietas podem causar acentuada redução na produção de gordura do leite, e essa redução é conhecida por depressão da gordura do leite (DGL). A DGL é resultado de alterações específicas na biohidrogenação de ácidos graxos (AG) insaturados provenientes da dieta, levando a passagem de novos subprodutos intermediários para o intestino, que subsequentemente, causam redução na síntese de gordura pela glândula mamária.
Dois fatores são fundamentais para a ocorrência da DGL, a oferta de AG poli-insaturados da dieta, discutido no último artigo, e a alteração no padrão de fermentação ruminal (Tabela 1). No artigo de hoje discutiremos como a alteração no padrão de fermentação ruminal causada pela alimentação pode afetar a produção de gordura pela glândula mamária resultando em quedas drásticas nos valores do teor de gordura do rebanho.
Tabela 1. Potenciais fatores de riscos para redução do teor de gordura do leite e áreas para desenvolvimento de estratégias nutricionais a fim de atenuar o risco de DGL.


Alteração do ambiente ruminal
Fatores que afetam o ambiente ruminal são os primeiros parâmetros considerados no controle de DGL em rebanhos leiteiros. Baixo pH é o principal fator no ambiente ruminal que leva o maior fluxo de AG para caminhos alternativos de biohidrogenação, resultando em maior concentração de subprodutos intermediários, conhecido com trans-, que causam a DGL. Uma vez que o pH ruminal é determinante na população bacteriana do rúmen, mudanças nessa população causam DGL no rebanho.
Em suma, o pH ruminal é representado pelo balanço entre a produção de ácidos provenientes da fermentação de carboidratos do rúmen, produção de tamponantes da saliva e ingredientes da dieta, e principalmente a taxa de remoção de ácidos através da absorção pela parede ruminal e pela passagem do rúmen para o intestino. Pesquisadores da University of Wisconsin em Madison, EUA, demonstraram a variação de pH ruminal durante um período de 24 horas e resultados de vários fatores dinâmicos que se interagem a todo momento. Dentro desses fatores incluímos:
- Perfil de carboidrato da dieta e taxa de degradação das frações de carboidratos afetados pela fonte, processamento e umidade;
- Oferta de FDN fisicamente efetivo afetado pela fonte e tamanho de partícula;
- Produção de tamponantes salivares como função do FDN fisicamente efetivo ofertado e fonte.
Tabela 2. Efeito do método de processamento de milho e a concentração de amido da dieta na síntese de gordura do leite.


Mesmo que a mensuração do grau e da duração do baixo pH ruminal exigido para causar maior fluxo de AG para rotas alternativas de biohidrogenação ainda não é totalmente conhecida, inúmeros estudos demonstram que mesmo pequenas alterações no pH ruminal está associado a DGL, já que essas alterações levam a mudanças na população bacteriana, principalmente naquelas espécies sensíveis ao ambiente ácido, resultando na maior produção de AG do tipo trans-, que é pré-requisito para DGL.
O efeito do método de processamento de milho é bastante conhecido no risco de DGL. Pesquisadores do Canadá reportaram 10% de redução na produção de gordura do leite quando grão de milho floculado foi substituído por grão de milho seco e moído. Mesmo que não exista um fator agindo isoladamente, esses resultados reforçam a ideia de considerar a taxa de fermentação das fontes de carboidratos como estratégia de controle de DGL. Da mesma forma, pesquisadores de Cornell, EUA, ofereceram dietas contendo silagem de milho de grão úmido e grão de milho seco e moído em dois níveis dietas com alta ou baixa concentração de amido (Tabela 2).
Animais que receberam dietas de baixo nível de amido não apresentaram diferenças no leite entre os tipos de processamento de grão de milho, porém no tratamento de alto amido, animais que receberam silagem de grão úmido de milho reduziram 15% da produção total de gordura do leite ou do teor de gordura em 0,54 pontos percentuais, quando comparados com o grupo de animais que receberam grão de milho seco e moído.
Outra informação bastante interessante é que vacas leiteiras que recebem silagem de milho como única ou principal fonte de volumoso são mais susceptíveis a DGL, principalmente quando AG insaturados também são suplementados na dieta. A substituição parcial da silagem por outra fonte de volumoso, como alfafa e gramíneas, podem aliviar os efeitos negativos da DGL (Tabela 3).
De acordo com os resultados, animais recebendo dietas com 50% de volumoso, sendo este 100% silagem de milho, e adição de 2% AG insaturados apresentaram menor produção total e concentração de gordura, uma vez que aumentaram a produção de trans-10 C18:1 na glândula mamária. Essa situação é revertida quando metade da silagem de milho é substituída por outra fonte de forragem, no caso do experimento alfafa.
Tabela 3. Efeito da suplementação de AG insaturado na fermentação ruminal e síntese de gordura na glândula mamária em vacas de leite recebendo dietas a base de silagem de milho ou silagem de milho + alfafa.


Outros hábitos de manejo também podem afetar negativamente a produção de gordura pela glândula mamária. O tamanho da partícula da forragem é bastante importante para manutenção do pH ruminal, assim problemas relacionados ao fornecimento correto da efetividade de fibra resultam em menor teor de gordura no leite. Uma redução do tamanho da fibra da silagem de milho de 3,1 mm para 2,0 mm pode resultar em quedas no teor de gordura em até 30%, independentemente da fonte de volumoso. Dessa forma é importante lembrar que os cuidados relacionados ao tamanho da partícula são fundamentais para evitar DGL em rebanhos leiteiros, e que nem sempre o tamanho da partícula de fibra da forragem colocada no vagão é a mesma encontrada no cocho, já que dependendo do vagão, o tempo de mistura da dieta pode reduzir o tamanho da fibra em poucos minutos (lembre-se que é necessário o mínimo de 21% de FDN fisicamente efetivo na dieta para produzir leite com 3,5% de gordura).
Da mesma forma cuidados com fibras muito longas é também importante para prevenção da DGL. Dietas que favorecem a seleção de concentrado pelos animais aumentam o risco de DGL na fazenda, e ainda, ofertar volumoso separado do concentrado, hábito de manejo muito comum em propriedades leiteiras por todo o Brasil, resultam em queda da gordura do tanque além de aumentar o risco de acidose. Nas fazendas onde o trato é oferecido em forma de dieta total, cuidados com a oferta ao longo do dia é crucial para o bom funcionamento do rúmen, evitando principalmente grandes picos de ingestão e consequentemente queda drástica no pH ruminal.
Uso de ionóforos
É bastante comum relacionar a suplementação de monensina sódica com queda da produção e do teor de gordura do leite nas mais diversas fases de lactação. A monensina afeta as taxas de biohidrogenação por alterar o padrão de fermentação e selecionar categorias específicas de bactérias, resultando em maior produção de intermediários do tipo trans- no rúmen. Esses efeitos são provavelmente resultados de interações com outros ingredientes da dieta e ações de manejo que predispõe vacas a DGL. Mesmo que uma pequena porção de AG insaturados passe por biohidrogenação através das vias alternativas que resultam em AG intermediários do tipo trans-, a onensina sem dúvida pode potencialmente aumentar a passagem desses intermediários para o duodeno e aumentar o risco de DGL.
Resultados de um levantamento bastante interessante realizada por pesquisadores da Universidade de Montreal no Canadá são apresentados na Tabela 4. Nesse levantamento realizado em 47 propriedades leiteiras, identificou-se o efeito na suplementação de monensina de acordo com a concentração de CNF, tamanho de fibra efetiva e o uso de feno nas dietas dos animais. Independentemente do CNF, tamanho de partícula e feno, a monensina reduz expressivamente a concentração de gordura do tanque dessas propriedades, porém em rebanhos cuja dieta apresenta alto CNF, ou baixa fibra efetiva ou ausência de feno, a queda do ter de gordura do tanque é ainda maior.

Além dos efeitos deletérios da monensina na gordura do leite de acordo com a concentração de CNF e efetividade da dieta, na presença de fontes de AG poli-insaturados, a monensina pode ainda agravar a queda de gordura do tanque. Pesquisadores da Universidade de Guelph, Canadá suplementaram concentrações crescentes de óleo de soja para vacas leiteiras em dietas contendo ou não monensina. Como foi discutido no nosso último artigo, o aumento da quantidade de AG poli-insaturados da dieta, no caso o óleo de soja, levou a queda do teor de gordura devido ao aumento do AG insaturados do tipo trans-, porém, de acordo com esses pesquisadores, a queda foi ainda maior quando a dieta continha monensina (Figura 1).
Esse cenário demonstra de forma bastante clara o potencial negativo para manutenção dos teores de gordura do leite, em rebanhos recebendo nossas dietas mais tradicionais. De maneira geral, dietas no Brasil são marcadas pela alta concentração de CNF e amido devido à baixa oferta e baixa qualidade de volumoso e ainda com crescente uso de óleos e outros subprodutos provenientes do processamento de oleaginosas, como alternativa para viabilizar alto custo da dieta. Tudo isso somado as altas temperaturas e meses de massiva umidade. Por isso existe um desafio tão grande de se manter saúde ruminal e qualidade do leite em nossas propriedades.
Figura 1. Efeito de três níveis de óleo de soja em dietas contendo ou não monensina* no teor de gordura e concentração de trans-10 C18:1 no leite.


Novas tecnologias
Dentre todos os aditivos presentes no mercado, a virginiamicina tem mostrado resultados bastante consistentes na manutenção do pH ruminal e incremento do teor de gordura do leite. A virginiamicina é um aditivo zootécnico melhorador de desempenho não-ionóforo, com indicação de uso pelo MAPA para aumento de produção e qualidade de leite. Oriunda da fermentação de Streptomyces virginae, a molécula foi descoberta na Bélgica em 1954 demonstrando grande capacidade em inibir crescimento de inúmeras bactérias Gram +. A virginiamicina é um potente inibidor de ácido lático no rúmen, uma vez que atua diretamente em Streptococcus bovis, Lactobacillus spp. e Fusobacterium necrophorum, reduzindo a incidência de acidose clínica e subaguda, abcessos hepáticos e principalmente otimizando pH ruminal, essencial para uma biohidrogenação adequada e incremento dos teores de gordura do leite.
O mecanismo pelo qual a virginiamicina aumenta a produção de gordura pela glândula mamária ainda não é totalmente conhecido, porém resultados demonstram que o maior pH ruminal, como resultado da queda da produção de ácido lático no rúmen, aumenta a população de bactérias específicas no rúmen responsável por transformar AG insaturados em AG saturados. Uma vez que essas bactérias são ácido-sensíveis, o baixo pH, normalmente encontrado no rúmen de vacas de leite por horas após ingestão de alimento, acaba inibindo o seu crescimento, porém com a presença da virginiamicina esse crescimento é favorecido.
Pesquisadores do Paraná observaram maior pH ruminal em vacas de leite recebendo 8 kg de concentrado contendo virginiamicina. Nesse experimento, o maior pH ruminal foi resultado da inibição da produção de ácido lático do rúmen, com incremento de ácido acético (um dos precursores de gordura do leite) e sem alteração das concentrações de propionato (Tabela 5).
Tabela 5. Efeito da suplementação da Virginiamicina no pH ruminal e produção de AG voláteis no rúmen.


Esses resultados positivos na manutenção do pH ruminal e redução da produção de lactato no rúmen estão diretamente relacionados com o incremento de gordura observado no campo e em outros experimentos avaliando o uso da virginiamicina em rebanho leiteiros. Em outro estudo, observou-se efeito positivo da virginiamicina na produção de gordura, mesmo quando esses animais estavam recebendo dietas com monensina (Tabela 6). Uma vez que é bastante comum o uso de monensina em dietas de vacas em lactação no mundo todo, inclusive no Brasil, o uso de virginiamicina deve ser considerado com a finalidade de maximizar a produção de sólidos sem que haja algum efeito negativo da produção de leite.
Tabela 6. Efeito da virginiamicina e a interação monensina/virginiamicina na produção de leite e sólidos em vacas holandesas em sistema de pastejo tropical.
Em uma recente análise de compilação de dados realizada pelo nosso grupo envolvendo sete experimentos, demonstrou-se mais uma vez os benefícios da virginiamicina no incremento de gordura (Figura 2). Na média, dos sete experimentos a virginiamicina apresentou incremento de 0,26 pontos percentuais na concentração de gordura quando comparada ao grupo que não recebeu virginiamicina, sendo que em dois dos experimentos, esse incremento foi maior que 0,40, confirmando que a molécula é uma ferramenta estratégica para maximizar síntese de gordura no leite, já que oferece maior segurança ruminal.
Figura 2. Resposta na concentração (%) de gordura no leite de vacas leiteiras suplementadas com virginiamicina, em relação ao grupo controle (sem virginiamicina) em sete diferentes experimentos. Informação do gráfico indica pontos percentuais do grupo recebendo virginiamicina em relação ao controle (valor 0%).
Considerações finais
No artigo de hoje apresentamos como diferentes fatores relacionados à dieta e alimentação de vacas leiteiras podem levar a alterações no ambiente ruminal, resultando em redução da síntese de gordura pela glândula mamária. Situações rotineiras que favorecem a queda do pH ruminal devem ser observadas e remediadas a fim de reduzir o risco de DGL. Ainda, existem aditivos como a virginiamicina, que servem como ferramentas estratégicas para manutenção dos teores de gordura do rebanho. Em termos práticos, não é apenas o incremento no valor pago pelo litro de leite que o alto teor de sólidos do tanque pode proporcionar, mas é importante lembrar também que vacas com rúmen saudável produzem mais leite e leite com mais sólidos


















Importantes informações sobre plantas forrageiras.

Intensificar um sistema de produção significa otimizar a utilização dos recursos que resultam no produto final. No caso de produção de leite a pasto, os dois principais recursos são a vaca e o capim. Para otimizar a interação entre esses dois recursos (animal e pasto) na produção de leite, é necessário que se conheça bem as características da planta e do animal, bem como os mecanismos pelos quais ocorre relação entre eles. Nessa primeira parte do artigo, discutiremos alguns pontos importantes sobre fisiologia da planta forrageira e como a estrutura do pasto pode afetar o consumo do animal. Na segunda parte, o foco será no manejo do pastejo e como os resultados das recentes pesquisas têm orientado as estratégias de decisão de manejo. 

Fisiologia da planta forrageira

Em condição de crescimento livre, o acúmulo de forragem do pasto é resultado do balanço entre processos de fotossíntese, respiração, produção de novos tecidos, senescência e morte. No início do crescimento da planta, conforme a área de folhas e a fotossíntese aumentam, a taxa de aparecimento de novos tecidos é acelerada. O processo de senescência, por sua vez, só se inicia quando a planta atinge um determinado número de folhas (geneticamente determinado) ou se houver alguma limitação nas condições de crescimento (água, luz ou nutrientes). Dessa forma, ocorre um atraso entre os processos de crescimento e senescência, permitindo acúmulo líquido de forragem (crescimento maior que senescência). A partir de certo momento, cuja velocidade depende das condições de crescimento, as taxas de aparecimento e senescência se igualam (ou seja, uma folha se nasce para cada folha nova que aparece) e o acúmulo líquido é zero, apesar da massa de forragem continuar aumentando (com crescente participação de material morto). 
Pensando sobre isso podemos concluir que é mais interessante, do ponto de vista de eficiência de utilização do pasto, que a colheita da planta aconteça no seu ponto de máximo de acúmulo líquido, antes das perdas por senescência se iniciarem. Pesquisas desenvolvidas inicialmente com plantas forrageiras temperadas, estudando as taxas de aparecimento e morte de tecidos, determinaram que esse ponto de acúmulo líquido máximo é atingido quando o dossel intercepta 95% da luz incidente. Posteriormente, o mesmo comportamento foi observado para plantas tropicais em estudos realizados nos últimos 20 anos no Brasil.

Deixar a planta crescer a partir desse ponto não é vantajoso por diversos motivos. O primeiro é relacionado ao não aproveitamento do ponto de acúmulo máximo, como discutido anteriormente. Além disso, a partir deste ponto no crescimento, as folhas mais novas (que aparecem no alto do dossel) começam a sombrear as mais velhas e inicia-se competição por luz. Quando plantas tropicais detectam competição por luz, passam a priorizar produção de colmos para colocar suas folhas novas em alturas mais elevadas do dossel. Isso não somente dificulta o consumo, como veremos mais a frente neste artigo, como também reduz o valor nutritivo da forragem, já que colmos apresentam mais parede celular, menos digestível, em detrimento de conteúdo celular, que é mais digestível.

Além do crescimento, é importante entendermos também como o pasto pode se adaptar a diferentes condições de crescimento a ele impostas, seja por corte ou pastejo. Essa adaptação envolve medidas de curto e longo prazo. No curto prazo, basicamente a planta altera a partição dos nutrientes entre órgãos de reserva e folhas. Por exemplo, pasto mantido mais alto envia parte dos nutrientes para seus órgãos de reserva, como raiz e base do colmo. Essa reserva será necessária em situação de redução drástica da área foliar, quando a fotossíntese não é capaz de suprir toda demanda de nutrientes necessária para o crescimento da planta. Por outro lado, quando o pasto é mantido mais baixo, a prioridade da planta é direcionar nutrientes para produção de folhas novas, mais eficientes fotossinteticamente, para garantir a continuidade de seu crescimento. Em uma situação como essa, a planta deixa de acumular nutrientes em seus órgãos de reserva, e terá rebrotação mais lenta em uma eventual desfolha severa.

Se a condição do pasto for mantida por longo período, a planta lança mão de alterações em sua estrutura e na arquitetura do dossel, sempre visando otimizar a interceptação de luz. Um exemplo de alterações de arquitetura do dossel é o ângulo das folhas, que será mais horizontal em pastos baixos, pois as folhas são menores e precisam da disposição horizontal para interceptar mais luz. Por outro lado, pastos maiores apresentam folhas mais eretas, pois cada planta tem área de folhas maior. Além disso, a densidade de população de plantas (número de plantas individuais por área de solo) pode aumentar ou diminuir de acordo com a altura em que o dossel é mantido. Em pastos mais altos cada planta individual tem maior tamanho, então o número de plantas diminui e vice-versa, de modo a garantir a mesma área foliar e interceptação de luz.

Podemos concluir, portanto, que as plantas forrageiras têm grande capacidade adaptativa quando submetidas a uma amplitude considerável de manejos. O critério de decisão sobre qual a condição ideal de exploração deve envolver, portanto, um segundo agente essencial para o sistema: o animal.

Consumo de forragem

No sistema de produção de leite em pastagens, a vaca é responsável pela sua própria colheita de forragem. A “máquina” de colheita do animal ruminante consiste de seu aparato bucal. No período de um dia, o bovino é capaz de desenvolver de 20 a 40 mil movimentos mandibulares para mastigação, acomodação e deglutição do bolo alimentar. Além disso, mais 15 a 20 mil movimentos diários são dedicados à ruminação. Cada movimento de apreensão de alimento, chamado bocado, permite ao animal adulto em pastejo consumir de 0,2 a 1 g de matéria seca de capim. O tempo que um animal passa pastejando é dependente de vários fatores, mas pode variar entre 6 e 12 horas diárias. O conjunto de todos esses fatores (número de bocados, massa de forragem por bocado e tempo de pastejo diário) representa, ao fim do dia, a quantidade de forragem consumida pelo animal.

Para se ter uma ideia da quantidade de forragem que um bovino consegue consumir, vamos pensar em uma vaca adulta com peso de 500 kg. Esse animal é capaz de ingerir 80 kg de massa verde de capim por dia, o que representa algo em torno de 10-12 kg de MS. Para isso, a vaca terá que pastejar uma área maior do que 40 m2 de capim e caminhar de 3 a 4 km. O gasto de energia nesse processo é muito grande e por isso, quanto melhor a forma que a forragem for oferecida, maior o potencial de consumo e, conseqüentemente, de desempenho animal.
O processo de consumo de forragem de animais em pastagens pode ser desdobrado em diversos níveis de estudo, com diferentes variáveis em cada nível, como mostra a figura 1, abaixo:
Figura 1. Variáveis componentes do consumo de forragem em animais mantidos em pastagens

A partir do entendimento dessa figura é possível perceber como o consumo de pasto é dependente tanto do animal, que apresenta limitação física para número máximo de bocados e tempo máximo de pastejo por dia, quanto das características estruturais do pasto, que definem a massa do bocado. Apesar da densidade da forragem (kg MS/ha por cm de altura do dossel) ter grande importância na massa do bocado, a característica do pasto que mais influencia o consumo é a altura do pasto. Isso ocorre porque a área do bocado é relativamente fixa devido à largura da mandíbula (8-9 cm) e ao comprimento da língua do animal apresentarem pouca alteração. 

Portanto, dentre as variáveis determinantes do volume do bocado, a profundidade do bocado tem maior importância relativa. A profundidade do bocado, por sua vez, é dependente da altura e estrutura do pasto, já que estas representam o quanto o animal consegue aprofundar sua cabeça no dossel forrageiro. Pastos mais baixos ou com participação de colmos no estrato superior reduzem drasticamente a profundidade do bocado, provocando reduções tamanhas na massa de bocado que não são possíveis de serem compensadas pelo aumento na taxa de bocados, resultando em queda no consumo diário de forragem.

Dessa forma, é possível concluir que a estrutura do pasto é a variável que reúne os interesses de animais e plantas no sistema. Do ponto de vista da planta, a estrutura do pasto representa o tamanho, qualidade e eficiência de seu aparato fotossintético e reflete o acúmulo e a abundância de forragem. Do lado do animal, representa a forma como a forragem é apresentada, sua apreensibilidade e facilidade de colheita, refletindo no consumo do pasto.

Na segunda parte deste artigo, discutiremos como a estrutura do pasto pode ser utilizada para se determinar metas de manejo do pastejo rotacionado de forma a melhor explorar o potencial de nossas plantas forrageiras.

 discutimos um pouco sobre a fisiologia da planta forrageira e como eventos relacionados ao crescimento da planta interferem no tipo de material forrageiro que será oferecido ao animal. Também foi abordado como os diferentes componentes de comportamento ingestivo se balanceiam para resultar no consumo de pasto diário de um animal ruminante. Por fim, pudemos concluir que a estrutura do pasto é a variável que integra os interesses da planta forrageira e do animal em pastejo. Dessa forma, técnicas mais recentes de manejo do pastejo têm utilizado variáveis de estrutura do pasto como ferramentas de decisão. Apesar de ser possível utilizar de tais ferramentas para manejar pastos tanto em lotação contínua quanto rotacionada, o foco desse artigo será lotação rotacionada, uma vez que este manejo é adotado mais frequentemente por sistemas intensificados de produção de leite.
Na exploração de pastagens por método de pastejo rotacionado, as decisões de manejo devem ser diárias e, por isso, o manejador do pasto tem grande importância no sistema e deve ser muito bem treinado. O técnico responsável pelo manejo do pastejo deve atuar em duas frentes independentes de tomada de decisão: momento de entrada dos animais no piquete, e momento de saída.

Momento de entrada dos animais no piquete

O momento de entrada dos animais no piquete é a decisão de manejo mais importante para garantir estrutura de pasto adequada durante toda estação de pastejo. Tradicionalmente, o pastejo rotacionado era manejado com período de descanso fixo, baseado em um determinado número de dias para cada espécie forrageira e para cada época do ano. Entretanto, com o avanço dos estudos em ecofisiologia das plantas forrageiras, ficou claro que o período de descanso deve respeitar o estado fisiológico da planta.

O ponto ideal no qual o crescimento da planta deve ser interrompido, ou seja, que o pasto deve ser utilizado, corresponde aos 95% de interceptação luminosa (IL), como vimos na primeira parte deste artigo. A interceptação de luz não é uma variável facilmente medida no campo, pois depende de um equipamento bastante caro utilizado apenas em situações experimentais. Por isso, pesquisas foram realizadas para correlacionar a interceptação luminosa com variáveis estruturais do pasto, mais facilmente mensuráveis. Dentre as variáveis estudadas, a que apresentou melhor correlação com a interceptação luminosa e, também, a mais fácil de se medir, foi a altura do pasto. 

Para cada espécie forrageira, os 95% IL são atingidos sob uma mesma altura do pasto. A Tabela 1 apresenta as alturas correspondentes aos 95% IL para as principais espécies de gramíneas forrageiras. Para que a correlação entre os 95% de IL e altura seja efetiva e consistente, e até mesmo para se explorar o potencial de uma determinada gramínea forrageira, alguns cuidados, já recomendados para o manejo da pastagem, precisam ser tomados. Os cuidados começam com a boa formação da pastagem, que envolve a escolha correta da gramínea forrageira para uma determinada região, uso correto da quantidade de sementes para a formação de bom stand de plantas, correção da acidez do solo, uso de adubação de manutenção para atender as exigências nutricionais da forrageira utilizada, entre outros. Esses cuidados são e devem ser tomados antes de se realizar o manejo do pastejo, não se pode e nem deve esperar boa correlação entre 95% IL com a altura do pasto se a pastagem foi mal formada, se há um baixo número de plantas por m2 e se a gramínea forrageira está com deficiência nutricional de um determinado nutriente. Adicionalmente, mesmo quando se toma os cuidados anteriores é preciso entender que, como base em pesquisas recentes, os pastos precisam de um período de adaptação quando se faz a mudança de um manejo do pastejo para outro. O tempo necessário para essa adaptação é dependente da forma como os pastos eram manejados anteriormente e o qual será submetido, mas as pesquisas indicam que no mínimo 6 meses são necessários. Respeitando esses cuidados e o período de adaptação ao manejo do pastejo a correlação entre 95% IL e altura será sempre muito boa.

Dessa forma, a altura dos pastos deve ser monitorada diariamente para definir o momento de entrada dos animais no piquete, quando esta atingir o valor correspondente a 95% IL. É muito importante que a altura de todos os piquetes da propriedade seja monitorada, pois plantas tropicais podem crescer muito rápido sob condições de crescimento adequadas. Obviamente, medir a altura de todos os pastos todos os dias é inviável, pois qualquer propriedade apresenta pelo menos 20-25 piquetes. Um método interessante e de boa aplicação prática no campo para monitorar a altura dos pastos é fazer uma medição completa, isto é, de todos os piquetes da propriedade, a cada 10 dias. Dessa forma, é possível prever a seqüência na qual os pastos irão atingir a altura de entrada e também estimar o crescimento, em cm/dia, utilizando-se duas medições consecutivas. Com esse valor de crescimento, o manejador de pasto consegue prever quantos dias, aproximadamente, cada piquete vai levar para atingir a altura de entrada.
Além da medição de todos os pastos a cada 10 dias, diariamente deve ser feito o monitoramento dos 2 ou 3 pastos mais próximos da altura de entrada para definir o dia exato da entrada. O número de pontos medidos por piquete depende muito do tamanho da área e da homogeneidade do pasto, mas de um modo geral, situa-se entre 10 e 20 pontos, medidos sobre um caminhamento em zigue-zague.

Momento de saída dos animais do piquete

Sistemas de pastejo rotacionado são caracterizados por períodos curtos de ocupação, às vezes inferiores a um dia e com no máximo 3 a 5 dias. Durante esse período, o rebaixamento é feito por diferentes lotes de animais, colocados sucessivamente no piquete de acordo com as exigências nutricionais de cada lote. 
Na prática, isso significa dizer que o lote de maior exigência, geralmente vacas de início de lactação e de maior produção, é o primeiro a entrar no piquete para pastejar o estrato superior, porção de maior valor nutritivo e maior facilidade de colheita. Após um período curto de ocupação, de 0,5 ou 1 dia, esse lote é movido para um piquete novo e outro lote entra nesse piquete para terminar o rebaixamento até o resíduo final. O lote utilizado para pastejar o segundo estrato deve ser de menor exigência nutricional, como vacas em final de lactação, novilhas prenhas ou vacas secas, já que a forragem disponível é de menor valor nutritivo (folhas mais velhas) e a estrutura de pasto remanescente é menos adequada para colheita, dificultando o consumo. 

Apesar de existirem recomendações de alturas ideais de saída para cada espécie forrageira (tabela 1), elas devem ser usadas como referências e não como metas específicas de manejo. Isso porque, sob mesma altura, o resíduo de um pasto pode apresentar estrutura totalmente diferente de outro, dependendo da condição que o pasto estava no momento da entrada dos animais. Dessa forma, a retirada dos animais do piquete deve ser determinada muito mais pela observação da condição do pasto conforme o rebaixamento vai acontecendo.
É importante ter em mente que o resíduo ideal é aquele que permite à planta rebrota rápida e vigorosa, o que depende do IAF remanescente, e não compromete demasiadamente o consumo dos animais, o que acontece quando o rebaixamento ultrapassa 50% da altura de entrada. Por outro lado, um resíduo muito alto ou com muitas folhas significa baixa eficiência de utilização do pasto e, consequentemente, redução da produtividade. Portanto, é essencial que o resíduo contenha folhas.
De forma bastante prática, pode-se dizer que o resíduo adequado apresenta coloração verde, por causa das folhas remanescentes. Quando olhamos para um pasto em final de rebaixamento e ele está marrom, podemos concluir que passou do ponto ideal, pois só apresenta colmos e material morto. Para ilustrar essa ideia, a figura 1 apresenta 3 situações de pastos em final de rebaixamento. Do lado esquerdo, podemos ver um pasto ainda com muitas folhas, que pode ser utilizado por mais tempo antes dos animais serem retirados. No centro temos o resíduo ideal e à direita um pasto que passou do ponto de retirada dos animais e só apresenta colmos e material morto.
Figura 1. Situações de pastos em final de rebaixamento, indicando o ponto ideal de retirada dos animais do piquete

Visto como devem ser as principais tomadas de decisões do manejador de pasto, podemos concluir que o manejo do pastejo consiste em sincronizar a utilização do pasto com a velocidade de crescimento da planta que, por sua vez, é dependente da disponibilidade de fatores de crescimento.

Quando a meta de entrada é desrespeitada, a estrutura do pasto é transformada de forma irreversível na mesma estação de pastejo. O capim elefante, por exemplo, quando manejado em crescimento livre, produz colmos tão grossos que sua aparência fica semelhante à de uma planta de cana de açúcar. Além de dificultar o consumo dos animais, essa estrutura inadequada prejudica também a qualidade do resíduo e a rebrotação do pasto, uma vez que é a participação de colmos é bem maior.

Monitoramento da eficiência de manejo

A eficiência do manejo do pastejo pode ser monitorada pela observação de algumas variáveis na planta e no animal que indicam ao manejador se as tomadas de decisões estão sendo adequadas.

Do ponto de vista da planta, as variáveis que devem ser monitoradas constantemente são:

• Estrutura do pasto:

Presença de colmos: indica problemas na meta de entrada;
Grande quantidade de material morto: indica altas perdas por senescência, evidenciando má utilização da forragem acumulada;
• Velocidade e vigor da rebrotação: reflete a qualidade do resíduo;
• Presença de plantas daninhas no piquete: indica baixa competitividade das plantas forrageiras, decorrentes de super-utilização. Uma planta forrageira bem manejada é mais competitiva e prevalece na área em relação às plantas daninhas.
Já do ponto de vista dos animais, as características comportamentais que podem refletir ao manejador a qualidade do manejo do pastejo são:

• Número e duração das refeições: quando os animais pastejam plantas com estruturas adequadas, cada refeição realizada é mais eficiente, ou seja, fornece mais alimento, fazendo com que as refeições sejam mais curtas e em menor número;
• Tempo pastejando no mesmo lugar: animais passam mais tempo pastejando no mesmo lugar (sem caminhar) em pastos adequados do que em pastos com estrutura ruim;
• Número de passos entre as paradas para pastejar: animais em pastos ruins dão menos passos entre duas paradas para pastejar do que em pastos bem manejados;
• Deslocamento do piquete: o deslocamento dos animais em pastos bem manejado é mais irregular quando comparado a forma de movimentação dos animais em pastos com estrutura ruim, mais retilínea.


Quais são os componentes de uma dieta balanceada e completa? você sabe como realizar?

O objetivo do nutricionista ao balancear uma dieta para vacas leiteiras é atender as exigências específicas de cada categoria animal, combinando diversos alimentos com composições nutricionais distintas de forma eficiente e economicamente viável. Entretanto, por melhor formulada e homogeneizada que a dieta esteja, vacas têm boa capacidade seletiva e acabam por ingerir uma ração distinta da originalmente formulada.
Diante da dificuldade em se estimar com precisão o que os animais de fato consumiram, a composição do leite produzido é uma ferramenta bastante interessante, uma vez que é o resultado do metabolismo dos alimentos ingeridos e também o produto de interesse do sistema de produção. Além disso, a coleta do leite é um procedimento simples e fácil de ser realizado e sua análise é suficientemente precisa, com custo acessível ao produtor.
A composição do leite pode ser utilizada como indicador do status nutricional dos animais, assim como sinalizador de distúrbios metabólicos, desde que seja analisada corretamente. Para isso, é preciso ter em mente valores de referência sobre os quais se observa um desvio aceitável ou considerado problemático. Esses valores se baseiam primeiramente na média da raça, relatada em literatura, mas devem ser ajustados de acordo com números médios de cada rebanho, além de serem consideradas variações decorrentes do animal, por exemplo, nível de produção, estágio de lactação ou idade da vaca, e do ambiente, como sistema de alimentação e época do ano.
Além de conhecer os valores de referência, é necessário também entender as respostas de cada componente do leite a alterações da dieta, uma vez que a relação não é simples e direta e sim dependente dos mecanismos de síntese dos sólidos do leite a partir de precursores dietéticos. O objetivo deste texto é relatar de forma simplificada como a composição do leite se alterar de acordo com o que o que o animal está consumindo para que possamos então fazer o caminho inverso e utilizar dados de composição de leite para avaliar o manejo alimentar da propriedade.
Começando com a gordura, este é o componente do leite que mais sofre alterações decorrentes de características da dieta, tanto em seu teor, como em sua composição de ácidos graxos. De forma generalizada, a síntese de gordura no leite responde diretamente a alterações no padrão de fermentação ruminal, uma vez que nesse processo são produzidos tanto os precursores quanto metabólitos reguladores da síntese na glândula mamária.
A fibra foi a primeira entidade nutricional relacionada a alterações na composição do leite. A degradação de carboidratos estruturais pelos microorganismos do rúmenproduz ácido acético, principal precursor da síntese de gordura na glândula mamária. Além disso, a fibra é o componente da dieta que mais diretamente afeta a mastigação, ruminação e conseqüentemente a produção de saliva, principal responsável pelo tamponamento ruminal.
Aspectos qualitativos da fração fibrosa também interferem no padrão fermentativo dorúmen e com isso são capazes de alterar o teor de gordura no leite. O tamanho de partículas do alimento volumoso, por exemplo, influencia não apenas na mastigação e ruminação do animal, como na taxa de passagem da digesta pelo rúmen. A digestibilidade do FDN, por sua vez, também determina taxa de passagem e produção de ácido acético. Tudo isso faz com que dietas com o mesmo teor de fibra possam ter efeitos diferentes na composição do leite.
O teor de carboidrato não fibroso, de rápida fermentação ruminal, também pode afetar o teor de gordura no leite devido à redução do pH ruminal, que prejudica os microorganismos degradadores de fibra, reduzindo a produção de ácido acético. O baixo pH do rúmen também prejudica a última etapa da biohidrogenação (quebra de duplas ligações) dos ácidos graxos dietéticos, resultando em maior fluxo de ácidos graxos insaturados para o duodeno, em especial o CLA trans10,cis12, que recentemente vem sendo apontado como inibidor da síntese de gordura na glândulamamária.
O aumento da participação de carboidratos não fibrosos na dieta aumenta a produção de ácido propiônico no rúmen que, por sua vez, estimula a produção de insulina. A insulina é o hormônio sinalizador do balanço energético do organismo e o aumento de sua concentração estimula a deposição de gordura no tecido adiposo, reduzindo a disponibilidade de precursores para síntese de gordura na glândula mamária.
Além dos carboidratos, os lipídios dietéticos também exercem importante papel nas alterações de teor de gordura do leite. A gordura é adicionada à dieta com o objetivo de aumentar a densidade energética sem reduzir o pH ruminal, em situações onde não é mais aconselhável maior participação de amido.
Os lipídios podem afetar a síntese de gordura no leite de forma indireta pois reduzem a digestão da fibra, uma vez que os ácidos graxos, principalmente os polinsaturados, são tóxicos a alguns microorganismos. Além disso, os glóbulos de gordura envolvem as partículas fibrosas, dificultando o contato destas com as bactérias celulolíticas.
Em condições de baixo pH ruminal, em que a biohidrogenação incompleta é potencializada, a presença de ácidos graxos polinsaturados, provenientes de lipídiosdietéticos, aumentam as possibilidades de formação do CLA trans10,cis12. As respostas em redução de teor na gordura do leite de acordo com o aumento da participação de lipídios na dieta são bastante consistentes e por isso se recomenda nível máximo de 6% de gordura na dieta. Uma ferramenta que pode ser utilizada para aumentar essa porcentagem sem prejuízos na composição do leite é o uso de gorduras protegidas da degradação ruminal.
O uso de aditivos na dieta também altera o padrão de fermentação ruminal e conseqüentemente a síntese de gordura no leite. Os tamponantes são utilizados para reduzir a queda do pH ruminal e com isso, também evitam decréscimo no teor de gordura do leite. Por outro lado, os ionóforos são antibióticos seletivos a alguns microorganismos, potencializando a ação dos produtores de ácido propiônico e reduzindo o pH ruminal. Portanto, a presença de ionóforos na dieta, de modo geral, reduz a gordura do leite.
Além dos componentes da dieta, propriamente ditos, distúrbios metabólicos de ordem nutricional, como acidose e cetose, podem também provocar alterações típicas no teor de gordura do leite. O quadro de acidose é caracterizado por pH ruminal abaixo de 5,5 e é resultado provável de ingestão excessiva de carboidratos de rápida fermentação, decorrente de desbalanceamento da dieta ou seleção do alimento por parte do animal. A acidose ocasiona todos os processos já discutidos neste texto relacionados ao abaixamento de pH e, portanto, resulta em queda na gordura do leite.
Já a cetose é conseqüência de quadro acentuado de balanço energético negativo, no qual a mobilização de reservas corporais é intensa e supera a capacidade de utilização dos corpos cetônicos pelo fígado na produção de energia, ocorrendo acúmulo desses componentes no sangue. Os corpos cetônicos e ácidos graxos (AG) livres decorrentes da mobilização de tecido adiposo são utilizados como precursores de gordura na glândula mamária, alterando a composição da gordura do leite em relação a normalmente encontrada no leite. De modo geral, a distribuição normal entre AG de cadeia curta e média (4 a 18 C), que são principalmente sintetizados na glândulamamária, e AG de cadeia longa (mais de 18 C), principalmente provenientes da dieta e reservas corporais, é de 50:50.
Como os ácidos graxos mobilizados do tecido adiposo são predominantemente de cadeia longa, a participação destes na gordura do leite de uma vaca com cetose aumenta em relação a de uma vaca normal, enquanto a porcentagem de ácidos graxos de cadeia curta é reduzida. O teor total de gordura, de modo geral, não sofre alterações, entretanto pequena elevação pode ser observada se a mobilização for muito expressiva.
Ao contrário da gordura, a proteína é um componente do leite de manipulação limitada, que também apresenta variações menores. A proteína do leite é composta principalmente por caseína (77 a 82%), além de proteínas do soro e nitrogênio não protéico. A proteína do leite é sintetizada a partir da proteína metabolizável, composta por um pool de aminoácidos absorvidos no duodeno, provenientes da proteína microbiana, proteína não degradável no rúmen e proteína endógena. A proteína microbiana corresponde à maior parte da proteína metabolizável, variando de 55 a 65% em vacas em lactação. Portanto, é esperado que qualquer manipulação dietética que potencialize a produção de proteína microbiana beneficie a síntese de proteína no leite.
Além da quantidade de proteína metabolizável, a qualidade dessa proteína também é essencial para síntese protéica na glândula mamária. A qualidade de uma proteína é definida de acordo com seu perfil de aminoácidos, considerado melhor quanto mais próximo for do perfil de aminoácidos da proteína de interesse, no caso a do leite. Diante de uma fonte de proteína de baixa qualidade, mesmo em quantidade suficiente, a síntese protéica é prejudicada e o excedente é excretado pelo organismo, em processo dependente de energia.
O fator relacionado à nutrição que mais interfere na produção de proteína microbiana é a ingestão de energia, uma vez que os microorganismos ruminais precisam de energia para utilizar a proteína degradável no rúmen para síntese de proteína microbiana. A energia da dieta provém principalmente dos carboidratos não fibrosos, que são rapidamente fermentados no rúmen. Entretanto, o aumento de carboidratos não fibrosos na dieta implica em redução de carboidratos fibrosos, o que, como visto anteriormente, pode prejudicar a síntese de gordura na glândula mamária. Percebe-se, portanto, que é necessário buscar um ponto de equilíbrio entre esses dois fatores para que se atinja o balanceamento ótimo da dieta.
A proteína da dieta tem pouco impacto sobre o teor de proteína bruta do leite, com exceção para casos de deficiência severa, que com certeza limitam a síntese de proteína, mas também reduzem a produção de leite. A recomendação atual de proteína na dieta envolve duas perspectivas, de proteína degradável no rúmen e de não degradável. A proteína degradável no rúmen (PDR) visa atender as exigências dos microorganismos para produção de proteína microbiana e estes são capazes de utilizar qualquer fonte de nitrogênio, inclusive não protéico, e por isso a qualidade da PDR é menos importante. Por outro lado, a proteína não degradável no rúmen (PNDR) vai ser absorvida no duodeno e utilizada diretamente pela glândula mamária para síntese protéica e por isso seu perfil de aminoácidos é fundamental para definir a eficiência de utilização da PNDR. A primeira parte deste artigo clique aqui para ler abordou como fatores nutricionais afetam gordura e proteína no leite com o objetivo de possibilitar a utilização de dados de composição do leite como ferramenta de avaliação do manejo nutricional do rabanho. A segunda parte do texto vai tratar de nitrogênio uréico no leite e da relação entre componentes.
O leite, assim como a urina, é um veículo de excreção do excesso de nitrogênio no organismo do animal. Esse nitrogênio excedente pode ser originado por excesso de proteína degradável no rúmen (PDR) na dieta, falta de energia no rúmen para utilização de toda a PDR disponível, excesso de proteína metabolizável ou perfil de aminoácidosnão adequado da proteína não degradável no rúmen (PNDR).
A degradação da PDR no rúmen gera nitrogênio amoniacal, que é utilizado pelos microorganismos para sua multiplicação, em um processo dependente de energia. Quando há excesso de PDR, ou falta de energia para utilização dessa proteína, o excesso de nitrogênio amoniacal é absorvido pela parede ruminal e transportado ao fígado para ser convertido em uréia, uma vez que amônia é tóxica ao organismo. Essauréia é então liberada na corrente sanguínea, sendo o principal contribuinte para a uréiaplasmática.
Da mesma forma, os aminoácidos e peptídeos da proteína metabolizável não utilizada pelo animal, seja por excesso ou por perfil de aminoácidos inadequado, são deaminados no fígado e o nitrogênio é convertido em uréia, que também é liberada na corrente sanguínea. Por fim, a uréia circulante pode ser reciclada para o rúmen e para a saliva, ou eliminada via urina e leite. Como a uréia é uma pequena molécula neutra que se difunde facilmente pelas membranas, conforme o sangue circula pela glândula mamária, a uréia se difunde para dentro ou para fora das células secretoras de leite, estabelecendo um equilíbrio entre sangue e leite.
O teor de nitrogênio uréico no leite (NUL) pode ser, então, utilizado como indicativo do excesso de proteína na dieta ou de má qualidade dessa proteína. Entretanto, as variações nos teores de NUL são grandes tanto ao longo do dia, como entre animais e em diferentes níveis de produção, tornando difícil o estabelecimento de valores de referência para o parâmetro. Dados de literatura apontam como padrões de referência de NUL valores entre 10 e 14 mg/dL, dependendo do nível de produção de leite do rebanho, mas como vimos no artigo Reduzindo o teor de proteína bruta em dietas para vacas leiteiras (clique aqui para ler), valores menores não necessariamente indicam deficiência de proteína na dieta, mas sim podem refletir melhor eficiência de utilização do nitrogênio dietético devido ao ajuste fino e cauteloso da dieta (balanceamento por amino ácido, por exemplo).
Uma forma de tornar mais precisa a interpretação de valores de NUL é a combinação desses dados com o teor de proteína bruta do leite avaliado. A tabela 3 apresenta, de forma simplificada, como a análise combinada dessas duas informações pode inferir sobre características da dieta.
Tabela 1. Avaliação combinada de NUL (mg/dL) e teor de PB (%) do leite para análise das características da dieta.


De acordo com a tabela 1, teores de NUL e PB estão baixos são indicativos de falta de PB e PDR na dieta. Já quando o NUL é elevado e a PB é baixa, a PDR está excessiva, ou mal utilizada por falta de energia e, com isso, ocorre deficiência de proteína metabolizável. Essa situação pode decorrer também de proteína metabolizável de má qualidade. Apesar de bastante prática, essa tabela deve ser utilizada com cuidado, especialmente quanto aos valores absolutos usados como referência, que são variáveis de acordo com cada situação.
Além dos teores de cada componente do leite, informações interessantes podem ser extraídas da relação entre alguns componentes como, por exemplo, a combinação entre NUL e PB, recém abordada nesse texto.
A relação entre teores de gordura e proteína do leite é talvez o parâmetro mais comumente utilizado para avaliação nutricional de um rebanho e também para detecção de distúrbios metabólicos. Quando essa relação está inferior a 1, estima-se que a proteína está adequada e a gordura está baixa, o que indica excesso de carboidratos não fibrosos na dieta (elevada relação concentrado:volumoso), inclusive com prováveis quadros de acidose. Já relação gordura/proteína maior que 1,5 pode ser decorrente de baixo teor de proteína, devido à deficiência de proteína ou energia na dieta, ou do elevado teor de gordura, conseqüência de quadros de cetose no rebanho.
O interesse das indústrias pelo teor de caseína, principal proteína do leite, vem crescendo bastante recentemente, uma vez que interfere diretamente no rendimento industrial do processamento do leite. Com isso, os laboratórios estão, cada vez mais, incluindo o teor de caseína nas análises rotineiras de composição do leite. A relação caseína/proteína bruta do leite pode ser indicativa da nutrição protéica e da sanidade dos animais. A caseína deve ser responsável por 77 a 82% da proteína bruta encontrada no leite. Valores abaixo disso indicam que uma fração acima do normal está sendo destinada a nitrogênio não protéico, principalmente uréia, ou a proteínas do soro. Quadros como esse podem ser decorrentes de inadequação protéica na dieta e serão acompanhados de elevado teor de NUL, ou de alta incidência de mastite, que danifica as células do tecido secretor, aumentando a difusão de proteínas do plasma para o leite e conseqüentemente a contagem de células somáticas (CCS).
É importante ressaltar que a análise dos dados de composição do leite não deve ser feita de forma isolada, considerando uma amostra de leite de uma vaca. O ideal é agrupar os resultados da análise de leite de todas as vacas do rebanho e criar gráficos que mostrem relações de interesse, por exemplo o teor de gordura X dias em lactação, ou teor de proteína X NUL. Em cada tipo de gráfico, podemos traçar linhas que representam variações esperadas (dentro do normal) e avaliar qual a porcentagem de vacas que estão fora da variação normal. As figuras 1 e 2, abaixo, montadas com dados hipotéticos, exemplificam esse tipo de análise.
Figura 1. Distribuição entre relação gordura:proteína de acordo com dias em lactação


A figura 1 apresenta um gráfico montado com relação gordura:proteína da análise do leite de um rebanho de aproximadamente 300-350 vacas em lactação. As linhas verdes representam a variação considerada normal para esse rebanho (entre 1 e 1,5). Podemos perceber claramente que há uma grade proporção de animais acima da linha do 1,5. O que gostaríamos de ver em um gráfico desse tipo é no máximo 20% das vacas fora da área entre as duas linhas verdes, e bem distribuídas acima e abaixo da linha. Neste caso mais de 20% estão fora das linhas e a grande maioria acima das linhas, indicando um problema de baixo teor de proteína do leite, resultado de falta de proteína bruta ou mais possivelmente deficiência energética na dieta.
Figura 2. Relação entre teor de proteína bruta do leite (%PB) e nitrogênio uréico no leite (NUL)
Na figura 2 as vacas foram agrupadas por dias em lactação e cada ponto no gráfico representa um grupo de vacas em determinado número de dias em lactação (0-100, 100-200, etc), mas o mesmo gráfico poderia ser feito com a análise de leite individuais. O retângulo verde indica a área considerada normal, onde esperaríamos encontrar as vacas. Neste caso, se combinarmos essas informações com as da tabela 1, podemos concluir que esse rebanho está consumindo dieta com excesso de proteína e/ou deficiência de energia disponível no rúmen (carboidratos fermentáveis). Esses são exemplos de utilização e análise de dados de composição do leite para avaliação nutricional. Entretanto, essa avaliação não deve depender apenas dessa ferramenta. Outros indicativos podem e devem ser observados pelos nutricionistas para avaliar a situação do manejo alimentar de forma mais ampla e assim conseguir identificar potenciais problemas.O escore de condição corporal (ECC) das vacas é uma medida subjetiva, que deve ser tomada sempre pela mesma pessoa, mas muito útil para avaliar o balanço energético dos animais no médio e longo prazo. O ECC pode ser monitorados em momentos específicos da vida produtiva das vacas, como secagem, parto, inseminações, pico de lactação. Esse assunto já foi abordado com mais detalhes em um artigo prévio neste radar de Nutrição (clique aqui para ler). A avaliação do comportamento ingestivo é importante para identificar situações extremas, nas quais animais agem de forma diferente do padrão do rebanho, o que pode indicar problemas de saúde ou distúrbios metabólicos de ordem nutricional, ou ainda problemas de desconforto generalizado, quando o rebanho inteiro encontra-se fora de padrões normais. A atividade de ruminação é um bom indicativo de conforto dos animais e também de consumo adequado de fibras. A recomendação prática é de que pelo menos 50% dos animais em ócio estejam ruminando. Para avaliar o consumo diário de alimento, a observação do enchimento ruminal (flanco ou "vazio" do animal) é bastante simples e precisa.O escore de fezes também pode ser um indicativo de consumo de alimentos e adequação nutricional, especialmente protéica. Há uma consistência e coloração consideradas ideais para as fezes das vacas, de acordo com cada sistema de alimentação e essas devem ser tomadas como referência para detecção de indivíduos com problemas. Esse assunto também já foi discutido em um artigo do radar de Sistemas de Produção (clique aqui para ler). Problemas de casco também podem ser sinalizadores de distúrbios nutricionais, principalmente a acidose que, em situações agudas desencadeiam laminites e as vacas demonstram muita sensibilidade nos cascos.O importante é entender que a formulação da dieta é apenas um dos processos do manejo alimentar da propriedade, que envolve desde a compra dos ingredientes, até a distribuição do alimento no cocho, incluindo agrupamento dos animais, mistura da ração, manejo do pasto, etc. Dessa forma, é essencial que tenhamos ferramentas para monitorar a eficácia desse manejo de modo a identificar problemas e corrigi-los o mais rápido possível.

TRATAMENTO VETERINÁRIO AGROVITTA: Alguns dados sobre o abate de novilhas

TRATAMENTO VETERINÁRIO AGROVITTA: Alguns dados sobre o abate de novilhas:     O porcentual de fêmeas abatidas no rebanho brasileiro vem crescendo nas últimas duas décadas, conforme análise do Centro de Estud...

Alguns dados sobre o abate de novilhas

 
 O porcentual de fêmeas abatidas no rebanho brasileiro vem crescendo nas últimas duas décadas, conforme análise do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada ( Cepea/Esalq-USP ), com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados na semana passada.

   
No caso de novilhas de até 2 anos a participação mais do que dobrou.
    Até 2002, o volume de fêmeas abatidas frente ao total ficava abaixo dos 30%, mas, desde 2003, passou a superar esse porcentual. Na média dos últimos 20 anos (de 1997 a 2016), as fêmeas representaram 31,6% do abate total e, na dos últimos dez (de 2007 a 2016), 32,5%

     Nos últimos cinco anos (de 2012 a 2016), a média vem se mantendo em 32,5%. Considerando- se a série do IBGE, o pico de abate de fêmea foi verificado em 2006, quando representaram 37,1% do volume total abatido no Brasil.
   Já quando separadas as novilhas das vacas, observa-se que, em 1997, as novilhas representavam 4% do abate total anual, participação que apresentou tendência de aumento nos anos seguintes. Na parcial de 2016 (primeiro semestre), as novilhas já representam 9% do abate total, mais que o dobro em pontos percentuais comparativamente ao início da série do IBGE.
     Na média de 1997 a 2016, 6,6% do abate total refere-se a novilhas, com o pico sendo observado em 2014, quando representou 9,3%.

TRATAMENTO VETERINÁRIO AGROVITTA: TRATAMENTO VETERINÁRIO AGROVITTA: você conhece os ...

TRATAMENTO VETERINÁRIO AGROVITTA: TRATAMENTO VETERINÁRIO AGROVITTA: você conhece os ...: TRATAMENTO VETERINÁRIO AGROVITTA: você conhece os benefícios do enxofre? :           O enxofre fornecido aos animais tem que ser na forma de...

você conhece os benefícios do enxofre?

          O enxofre fornecido aos animais tem que ser na forma de Sulfato, que é a forma do elemento na qual o animal consegue assimilar os benefícios (a biodisponibilidade é adequada).Além destes benefícios que você mencionou, envio abaixo mais informações sobre o uso do enxofre na forma de sulfato: Por que é importante seu uso ?  O organismo contém aproximadamente 0.20% de enxofre, e grande parte deste é encontrado na forma de aminoácidos sulfurados como a Cistina, Metionina e Cisteína. As vitaminas como: Tiamina e Biotina têm o enxofre na sua estrutura. É ainda encontrado em hormônios, e importante na formação de outros compostos tais como a Condroitina, a Taurina e a Heparina que também contém enxofre na sua estrutura. Por que usar ? 

        - O Enxofre é um elemento muito importante na síntese de proteína, pois, os aminoácidos essenciais cisteína e metionina contêm S, participando também das vitaminas biotina, tiamina, dos polissacarídeos sulfatados incluindo a condroitina que é componente chave da cartilagem, ossos, tendões e paredes dos vasos, sanguíneos. 

        - As funções básicas do elemento estão relacionadas ao metabolismo das proteínas, carboidratos e gorduras, coagulação do sangue, função endócrina e equilíbrio ácido-base, dos fluídos intra e extracelulares (Mc Dowell, 1999). - A deficiência de S pode ser caracterizado por: perda de peso, fraqueza geral, lacrimejamento, aspecto emaciado e morte, reduz a síntese microbiana e apresenta subnutrição proteica. A ausência de S na dieta resulta em uma população microbiana ineficiente na utilização do lactato e assim o ácido láctico se acumula no rúmen, sangue e urina (Mc Dowell, 1999). 

             - Assegura formação de sulfatos no organismo preservando cartilagens e ossos; 

          - Para vacas em período seco (pré-parto) no uso de dietas aniônicas é recomendável, prevenindo a hipocalcemia já após o parto (Embrapa 47, ISSN 1518-3254). 

               - Preserva a integridade dos fâneros: melhora a pelagem, plumagem e lã.  - Assegura melhorias da síntese protéica microbiana, e melhoria na digestão da celulose ; 

              - Potencializa o aproveitamento das forragens de baixa qualidade, com melhor degradação da fibra ruminal.

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